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Pestana de Aguiar"Quem não sabe uivar, não encontrará sua matilha" (Charles Simic) |
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Festa de espumaSoneto de intimidade
Vinícius de Moraes
Nas tardes da fazenda há muito azul demais. Eu saio, às vezes, sigo pelo pasto, agora Mastigando um capim, o peito nu de fora No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau de pequenos canais Para ir beber na fonte a água fria e sonora E se encontro no mato o rubro de uma amora Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve Nós todos, animais, sem comoção nenhuma Mijamos em comum numa festa de espuma.
Jeu de main, jeu de vilainA entidade máxima do futebol confirmou oficialmente que não vai anular a partida entre França e Irlanda, alegando que a Lei 5 das regras oficiais diz que o árbitro tem autoridade total para fazer cumprir as regras do jogo e que as decisões dele sobre os fatos durante as partidas são definitivas. Não sei se estou sendo pouco inteligente, mas não me parece que validar um escandaloso lance de mão na bola seja fazer cumprir as regras do futebol. Também me parece óbvio que as decisões de qualquer árbitro só podem ser definitivas se, e somente se, estiverem de acordo com as regras.
Thierry Henry não nega, e não haveria como negar. Todo o planeta viu. Graças à transmissão pela TV, é claro. Mas, se não é pra todo mundo ver, porque a FIFA cede os direitos de transmissão, pelos quais, imagino, cobra bem caro? Devemos fingir que não vimos? Devemos continuar fingindo que não vemos a quantidade absurda de erros que os juízes e seus assistentes cometem em qualquer partida?
O Sr. Joseph Blatter, presidente da FIFA, disse em recente entrevista que na sua gestão as imagens de TV não serão usadas para corrigir esses erros, porque, na sua opinião, esses erros fazem parte do futebol. Nesse caso, temos uma outra regra além das oficiais: vale tudo o que o juiz não vir, ou não quiser ver, com a benção da FIFA.
Pestana 豹 哮 A raiz da liberdadeNuns dias chove, noutros dias bate sol. Assim tem sido esta nossa primavera carioca. É, meus caros amigos, a coisa aqui tá preta. Se os caras lá em Copenhague não chegarem a um acordo, estamos fritos. Ontem, o dia amanheceu com céu claro e sol forte – o verão já está ali, na esquina – mas se podia sentir, pela primeira vez este ano, a brisa, aquele ventinho gostoso que faz carinho na pele e sussurra na alma da gente: “Carpe diem.”
20 de novembro – Sob a cabeça de Zumbi, Um sorriso negro
Pestana 豹 哮
Não é tão malRecebi um e-mail de uma amiga com a seguinte convocação:
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CAMPANHA DE UTILIDADE PÚBLICA: “Lugar de cunhado trambiqueiro é na cadeia!”
Se você já foi vítima de algum cunhado trambiqueiro (ou outro parente ou um amigo), teve sua casa invadida, sua geladeira assaltada, seu dinheiro surrupiado, sem nenhuma explicação, junte-se à nossa campanha. Passe esta mensagem pra frente, vamos nos unir contra essa turma folgada que só pensa em tirar proveito a nossa custa.
Não há nada pior que cunhado folgado, que chega sempre na hora da refeição, pede dinheiro emprestado e não devolve. Se cunhado fosse coisa boa, não começaria com essa sílaba.
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Respondi a minha amiga explicando-lhe que eu não poderia aderir a uma campanha contra mim mesmo, já que em várias ocasiões invadi a casa de meus cunhados para compartilhar as delícias de suas geladeiras, e já lhes tomei dinheiro emprestado, sempre com boas explicações – e nunca me esqueço que um dia terei de devolvê-lo.
Além do mais, não concordo com a última frase do manifesto: começar com aquela sílaba pode ser muito prazeroso.
Pestana 豹 哮
Para uma moça calipígiaA bunda que engraçada
Carlos Drummond de Andrade (1930 - O AMOR NATURAL)
A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora – murmura a bunda – esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, redunda. |
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