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Jeu de main, jeu de vilain

A  entidade máxima do futebol confirmou oficialmente que não vai anular a partida entre França e Irlanda, alegando que a Lei 5 das regras oficiais diz que o árbitro tem autoridade total para fazer cumprir as regras do jogo e que as decisões dele sobre os fatos durante as partidas são definitivas.

Não sei se estou sendo pouco inteligente, mas não me parece que validar um escandaloso lance de mão na bola seja fazer cumprir as regras do futebol. Também me parece óbvio que as decisões de qualquer árbitro só podem ser definitivas se, e somente se, estiverem de acordo com as regras.

 

Thierry Henry não nega, e não haveria como negar. Todo o planeta viu. Graças à transmissão pela TV, é claro. Mas, se não é pra todo mundo ver, porque a FIFA cede os direitos de transmissão, pelos quais, imagino, cobra bem caro? Devemos fingir que não vimos? Devemos continuar fingindo que não vemos a quantidade absurda de erros que os juízes e seus assistentes cometem em qualquer partida?

 

O Sr. Joseph Blatter, presidente da FIFA, disse em recente entrevista que na sua gestão as imagens de TV não serão usadas para corrigir esses erros, porque, na sua opinião, esses erros fazem parte do futebol. Nesse caso, temos uma outra regra além das oficiais: vale tudo o que o juiz não vir, ou não quiser ver, com a benção da FIFA.

 

Pestana 豹 哮

Não é tão mal

Recebi um e-mail de uma amiga com a seguinte convocação:

 

***

 

CAMPANHA DE UTILIDADE PÚBLICA:

“Lugar de cunhado trambiqueiro é na cadeia!”

 

Se você já foi vítima de algum cunhado trambiqueiro (ou outro parente ou um amigo), teve sua casa invadida, sua geladeira assaltada, seu dinheiro surrupiado, sem nenhuma explicação, junte-se à nossa campanha. Passe esta mensagem pra frente, vamos nos unir contra essa turma folgada que só pensa em tirar proveito a nossa custa.

 

Não há nada pior que cunhado folgado, que chega sempre na hora da refeição, pede dinheiro emprestado e não devolve. Se cunhado fosse coisa boa, não começaria com essa sílaba.

 

***

 

Respondi a minha amiga explicando-lhe que eu não poderia aderir a uma campanha contra mim mesmo, já que em várias ocasiões invadi a casa de meus cunhados para compartilhar as delícias de suas geladeiras, e já lhes tomei dinheiro emprestado, sempre com boas explicações – e nunca me esqueço que um dia terei de devolvê-lo.

 

Além do mais, não concordo com a última frase do manifesto: começar com aquela sílaba pode ser muito prazeroso.

 

Pestana 豹 哮

 

 

Saravá, mozifio san!

Faleceu recentemente (12.09.2009) o acadêmico Antônio Olinto. Ano passado, por ocasião das comemorações do centenário da imigração japonesa, ele publicou um artigo no jornal carioca “Tribuna da Imprensa”. Vejam este trecho:

 

“Por outro lado, o modo como o japonês se adaptou no Brasil acontecera com poucos estrangeiros. Costumo citar o encontro que tive num festival de candomblé realizado em São Paulo, [...] Havia mais de cem conjuntos que iam dançar no encontro. De repente vi um grupo de japoneses - homens, mulheres e adolescentes.

 

“O diretor do evento me informou: "Não fique espantado. É uma Casa de Santo do interior que adotou o rito africano. Aquele mais alto é o Pai de Santo". Fui conversar com ele que me disse: "Sempre achei que a religião deve se basear na dança. Quando descobri no Brasil o candomblé, disse logo: ‘Esta é a minha religião. E meu pessoal dança muito bem.’”

 

Antônio Olinto, “O Brasil e o Japão”

Tribuna da Imprensa (RJ) 1/7/2008

 

*

 

Aliás, há quem veja outras relações, além da dança, entre a religiosidade afro-brasileira e a nipônica e diga que “Orixás têm personalidades individuais, habilidades e preferências rituais, e são conectados a um fenômeno natural específico (um conceito não muito diferente do Kami do Xintoísmo japonês)”.

 

*

 

Mas saindo da academia para as ruas, se com isso não ofendo o imortal, confiram a axé music do Pai Toshiro San: 

        

Salve, Jorge! Saravá Ogum!

 

 

No Rio de Janeiro, São Jorge é Ogum.


Talvez seja porque a armadura, a lança, a espada e o escudo do santo sejam feitas do ferro e do aço que o Orixá deu aos homens. Talvez porque ambos sejam guerreiros e corajosos.


São Jorge, cavaleiro corajoso,

intrépido e vencedor,

abre os meus caminhos.


(Oração)


Filho de Pemba

Bebe água no rochedo

Filho de Ogum

Corre campo e não tem medo.


(Ponto de Umbanda)


Para nós, São Jorge é Ogum, e Ogum é São Jorge. No coração carioca o sincretismo é perfeito, santo e Orixá são uma coisa só. Falou de um, falou do outro. E é justamente por isso que ele é tão amado e festejado pelo povo desta cidade – e por isso também tão desprezado pela elite eclesiástica.


Meia-noite,

Os fogos abrem a festa -

Salve Jorge!


Lua minguante -

Já chega de toda a parte

O vermelho e branco.


Toque de alvorada -

A imagem do bom combate

Provoca emoção.


Igreja de São Jorge -

E o pagode come solto

Na outra esquina.


Sai a procissão -

Navegam num mar de gente

O santo e o dragão


Cai a noite,

Sobem os atabaques -

Saravá Ogum!


Ogum da madrugada

Sentinela de Aruanda

Guerreiro de Oxalá

 

Pestana 豹 哮

 

Dia do Índio

 

Todo dia era dia de índio, como diz o Jorge Benjor. Depois do “descobrimento”, todo dia era dia de caçar índio. Em 1940, início de um novo tempo: foi realizado o 1o. Congresso Indigenista Interamericano, no México. Os índios mesmo a princípio não apareceram, achando que era mais uma arapuca dos brancos. Mas no dia 19 de abril decidiram participar e a data virou Dia do Índio. Gegê, aqui no Brasil, então chefe do Estado Novo, assinou um decreto-lei oficializando a comemoração.


Como será que os nossos índios chegaram até aqui? Ou não chegaram, “apareceram” em um ponto qualquer das Américas? Essa é, até hoje, uma questão polêmica, mas a maioria dos pesquisadores acha que os índios vieram da Ásia, atravessando o Estreito de Bering quando as águas viraram gelo num dos períodos glaciais, há coisa de uns 40.000 anos.


Quem, se não aposta nisso, não tem dúvidas de que pelo menos índios e asiáticos se conheceram antes de Colombo, é o linguista Luiz Caldas Tibiriçá, autor de “Estudo comparativo do japonês com línguas ameríndias: evidências de contatos pré-colombianos” e “Tupi Língua Asiática”.


No site da Rosa Sonoo encontrei uma amostra das evidências do Prof. Luiz Caldas:

 

 

TUPI

PORTUGUÊS

JAPONÊS




acapê

a parede

kabe

amã, mana

a chuva

âme

anhá

sombria

an-ya

arassy

tempestade

arashi

caxi

doces

kashi

curi

castanha

kuri

mi-mi

semente

mi

tataca

estalar

tataku

sumarê

flores do campo

sumire


 

***

iaé -

passamos a noite toda

fora da maloca

 

Pestana 豹 哮

Kirisuto Matsuri

 

A história é bem conhecida: Jesus, depois de crescido, sumiu por uns tempos, derrotou o demônio no deserto e voltou cheio de gás para cumprir a sagrada missão de nos salvar. Como os evangélicos de hoje, os judeus de sempre achavam que só eles sabiam interpretar a vontade de Deus, e deram um jeito de convencer os ímpios romanos a pregarem o impostor na cruz. Morto, o homem foi sepultado, mas, aleluia, aleluia, no dia seguinte o sepulcro estava vazio e até hoje boa parte humanidade se divide entre os que dizem que ele ressuscitou e os que dizem que o corpo foi roubado.

Há, porém, quem tenha uma terceira opinião. No Japão, no povoado de Shingo, famoso por seu sorvete de... alho, reza a lenda que quem morreu na cruz não foi Jesus, foi o seu irmão. Jesus, quando viu a coisa preta, se mandou para o Japão, onde já estivera nos doze anos em que andou sumido. Naquela estranha ilha, foi morar em Shingo, casou, teve filhos, virou plantador de alhos, e viveu mais de cem anos. E é lá que está sepultado.


E é lá também que, anualmente, acontece o Kirisuto (Cristo) Matsuri, o festival não-religioso de bon odori (dança folclórica japonesa), no dia 3 de junho.


O detalhes dessa fantástica versão da vida de Cristo podem ser vistos no blog da minha amiga Emília Eiko, autora de “Memórias de uma decassegui – as aventuras de uma brasileira no Japão”.

 

Pestana 豹 哮

Buummm!!!

Fim de ano, alegria geral. Cheios de esperança, apostamos que “este ano não vai ser igual àquele que passou”, e para mostrar nossa confiança nos bons augúrios – ou por via das dúvidas – fazemos no reveillon a festa que desejamos para os próximos 365 dias. Roupa nova branca ou amarela, salvo melhor juízo dos astrólogos e outros enganadores muito consultados nesta época; mesa farta, com comidas também especialmente indicadas para a ocasião – assado de bicho que cisca para trás não é legal – champanhe, e, no momento culminante, uma exuberante queima de fogos.

 

Moro de frente para o morro de São Carlos, a uma saudável distância, e não me dou ao trabalho de disputar espaço nas areias de Copacabana ou do Piscinão de Ramos: a comunidade é controlada por uma facção criminosa, como se diz na imprensa, com alto poder de fogo, inclusive de fogos de artifício. Soltam fogos o ano todo, no dia de São Sebastião, no de São Jorge, no dia das mães, no dia do aniversário da mãe do chefe do tráfico, nas festas juninas, para avisar os consumidores que chegou um carregamento de droga fresquinha, etc., mas na passagem do ano promovem um espetáculo comparável ao do reveillon oficial, que às vezes duram bem mais que os vinte minutos da praia. Com direito, é claro, a algumas rajadas de balas traçantes. 

 

Fogos chiam e explodem. Alguns emitem uma espécie de assovio, e é desses que Frida, a matriarca dos meus yorkshires, tem verdadeiro pavor. Uma amiga nossa, preocupada com a situação aflitiva a que ficam expostos os caninos e felinos nessa época do ano, encabeçou uma campanha sugerindo que se fabriquem fogos que não façam barulho. Teríamos o espetáculo de luzes e cores nos céus sem causar traumas na bicharada.

 

A princípio, achei uma boa idéia. Depois fiquei pensando: foguete que não faz “bum!”? Será que não vai ficar tão sem graça quanto fazer amor com uma mulher que não geme?

 

Pestana 豹 哮