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Pestana de Aguiar

"Quem não sabe uivar, não encontrará sua matilha" (Charles Simic)

Cabeça, irmão...

"Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma melhor compreensão de nós mesmos."

C.G.Jung

"Num tempo de trevas, o olho começa a enxergar."

Roethke

"Se entre os amigos encontrei cachorros, entre os cachorros encontrei-te, amigo!"

Casimiro de Abreu

"Estamos tão acostumados a nos esconder dos outros que terminamos nos escondendo de nós mesmos"

La Rochefoucauld

No tempo do onça

A namorada

Manoel de Barros


Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

O nosso sabiá

Costumo acordar por volta das duas horas. Gosto do silêncio da madrugada. Mas, especialmente nesta época do ano, ele só dura até as quatro e meia, quando o sabiá que mora no ficus bem em frente à minha varanda começa a cantar. Não me aborreço. Salvo o que estou fazendo, boto o computador pra dormir, faço um café, e venho para a varanda aproveitar a trilha sonora do novo dia.

O canto do sabiá -
Ainda não amanheceu,
Mas não demora.

Pestana 豹 哮

***

Sabiá é passarinho de muitos cantares. No entanto, a melodia que ouvimos, eu, nesta Tijuca carioca, e Clarice Villac, na Chácara da Barra em Campinas, é a mesma. A minha amiga gravou:

 

Tonando-se mulher



na beira do rio
mulheres lavam a roupa -
bolhas de sabão

Pestana 豹 哮

Enamorados

pássaros em amor
voejando sobre as árvores
dois em um

Pestana 豹 哮

(inspirado pelo "Jabuti" da Alice Ruiz)

Maravilhas

"Quanto às pirâmides e às outras antiguidades, elas não provam outra coisa senão o orgulho e o mau gosto dos príncipes do Egito, bem com a escravidão de um povo imbecil, empregando seus braços, que eram seu único bem, para satisfazer a grosseira ostentação de seus senhores."
 

Servos modernos

"Nossa sociedade de serviços é uma sociedade de servos, de homens servilizados a seu próprio uso, sujeitados a suas funções e a seus desempenhos – perfeitamente emancipados, perfeitamente servos."

Jean Baudrillard, "A troca impossível"

Também penso, logo...

Leu, nos jornais deste fim-de-semana, que estão pensando em usar as fezes das galinhas para produzir energia.

A quantidade de dejetos que as penosas produzem daria conta do consumo de toda uma pequena cidade se fosse aproveitada dessa forma. Além de útil, a medida contribuiria para diminuir a poluição do solo pelo acúmulo de titica.

Ora, pensou lá com os seus botões, o que será que as fezes das galinhas têm que as dos humanos não têm? Será que a monstruosa quantidade de bolo fecal expelida pelos habitantes de uma cidade como, por exemplo, o Rio de Janeiro, não poderia ser aproveitada da mesma forma? Imaginem toda aquela merda, sendo desviada dos rios, lagoas e praias para gerar energia; imaginem toda a merda do mundo fazendo funcionar geladeira, ar condicionado, TV, computador; quem sabe até inventam um carro movido a gases?

Se isso for possível, ele, pelo menos, vai ficar muito feliz de saber que as suas cagadas estão servindo a um fim mais nobre.

Pestana 豹 哮